Há dias em que o trabalho parece pesar mais… bem mais do que devia.

Não é apenas a tarefa em si, o prazo ou o acúmulo de reuniões no calendário: é uma tensão constante em formato de aperto no peito, impedindo-me de desligar mesmo quando estou à mesa para jantar com a minha família.

Durante muito tempo, achei que isto era normal… Que estar sempre um pouco em esforço, um pouco em alerta, um pouco cansada era aceitável…

E, sem me aperceber, fui normalizando sinais que não eram tão pequenos assim: dificuldade em descansar, em dizer “não”, em parar sem culpa, em reconhecer limites.

O mais curioso é que raramente existe um momento claro em que algo muda.

É um cenário trémulo e cinzento.
É um desgaste lento, quase silencioso, que se instala enquanto continuamos a funcionar.

Será por isto que é tão difícil falar sobre saúde mental no trabalho…? Talvez… porque muitas vezes os problemas não aparecem em formato de crise, mas como rotina conformada.

- Por alguém que ainda está a aprender a fazer as perguntas certas 🍃​

O que torna a experiência anterior difícil de nomear é precisamente o seu carácter discreto: não se trata de um evento único e “vistoso” ou de uma rutura evidente; mas de um processo gradual, em que o corpo e a mente vão acumulando pequenas sobrecargas que, isoladamente e à primeira vista, parecem suportáveis.

E é por isso que tantas pessoas demoram a reconhecer o que estão a viver: porque o desgaste não chega com alarme, mas sim com normalidade... E é nessa normalidade que se torna mais difícil questionar, nomear e compreender o que está a acontecer.

Aliás, este espaço silencioso abre espaço para o surgimento dos riscos psicossociais: fatores ligados à organização do trabalho, às relações e às exigências emocionais, com impacto real no bem-estar, na motivação, na produtividade e na saúde mental.


O desgaste por detrás da produtividade

Existe uma experiência cada vez mais comum no contexto profissional contemporâneo: a sensação persistente de estar sempre aquém, mesmo quando o esforço é constante e os resultados existem.

Embora esta vivência possa surgir associada à Síndrome de Impostor, ela não se limita a uma característica individual. Frequentemente, reflete também a forma como o trabalho está organizado, as exigências emocionais presentes no ambiente profissional e a pressão contínua para produzir, responder e estar “sempre” disponível.

Em contextos marcados por ritmos acelerados, sobrecarga, insegurança, avaliação constante ou pouca valorização emocional, torna-se mais difícil reconhecer limites e necessidades pessoais. Neste difícil cenário, o descanso passa a ser vivido com muita culpa, o erro é perseguido pelo enorme fantasma do medo e a vulnerabilidade veste-se de fragilidade, com muita vergonha associada…

O impacto silencioso na saúde mental

Os efeitos nem sempre são imediatos ou visíveis. Na maioria das vezes, manifestam-se de forma gradual: cansaço constante, ansiedade persistente, dificuldade em descansar, irritabilidade, desmotivação, sensação de vazio ou afastamento emocional do próprio trabalho e das relações pessoais.

Estudos internacionais mostram que os fatores psicossociais associados ao trabalho estão diretamente relacionados com o aumento de stress crónico, exaustão emocional, burnout, dificuldades de concentração, perturbações do sono e sofrimento psicológico. Segundo a European Agency for Safety and Health at Work, o stress, a ansiedade e a depressão representam atualmente o segundo problema de saúde relacionado com o trabalho mais frequente entre trabalhadores europeus, e cerca de 45% das pessoas afirmam estar expostas a fatores de risco que afetam negativamente a sua saúde mental. Os dados mais recentes do inquérito europeu OSH Pulse revelam ainda que 27% dos trabalhadores europeus referem experienciar stress, ansiedade ou depressão causados ou agravados pelo trabalho.

Em Portugal, embora a discussão sobre saúde mental no trabalho continue muitas vezes envolta em silêncio ou estigma, os sinais tornam-se cada vez mais difíceis de ignorar. De acordo com a Ordem dos Psicólogos Portugueses, quase 2 em cada 5 trabalhadores portugueses (33%) referiram ter experienciado stress, ansiedade ou depressão relacionados com o trabalho no último ano, um valor acima da média da União Europeia (27%). Para além do impacto humano, estima-se que o absentismo e o presentismo associados ao stress e aos problemas de saúde mental possam custar às empresas portuguesas até 5,3 mil milhões de euros por ano, refletindo uma realidade onde muitas pessoas continuam a trabalhar mesmo em sofrimento silencioso.

Estes dados informam, de forma palpável, o estado atual desta realidade. A verdade é que, muitas pessoas continuam a funcionar aparentemente “bem” enquanto o desgaste se acumula internamente. É precisamente neste espaço, entre aquilo que se consegue continuar a fazer e aquilo que se começa silenciosamente a perder, que os riscos psicossociais ganham relevância. É precisamente por isto que importa, sempre, atuar sob a ótima da prevenção.

O papel das lideranças e da cultura organizacional

Na realidade, a saúde mental no trabalho é profundamente influenciada pela forma como os ambientes profissionais são organizados, pelas relações existentes nas equipas e pela cultura construída dentro das organizações. A prevenção dos riscos psicossociais encontra o seu espaço para crescer precisamente neste meio.

Lideranças emocionalmente conscientes tendem a criar contextos de trabalho mais seguros, onde existe espaço para comunicação honesta, reconhecimento de limites e relações mais humanas. Ambientes em que as pessoas sentem que podem expressar dificuldades sem medo de julgamento ou penalização tendem a reduzir sentimentos de isolamento, sobrecarga e hipervigilância constante.

Muitas vezes, são as pequenas mudanças que têm maior impacto no quotidiano profissional: validar emoções sem desvalorizar experiências; incentivar pausas e descanso; respeitar limites entre vida pessoal e trabalho; evitar culturas de hiperdisponibilidade; promover conversas abertas sobre saúde mental e criar espaços onde a vulnerabilidade não seja interpretada como fragilidade.

Importa também reconhecer que as próprias lideranças não estão fora destas dinâmicas: também elas estão expostas a pressão, exigência e sobrecarga, sendo igualmente importante que possam reconhecer as suas dificuldades e procurar apoio quando necessário.

Falar sobre saúde mental no trabalho não aumenta fragilidades: aumenta consciência, prevenção e capacidade de cuidado coletivo. Fontes:

https://osha.europa.eu/en/themes/psychosocial-risks-and-mental-health

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_relatorio_prosperidadeesustentabilidadedasorganizacoes2023.pdf

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