Há três meses nasceu a minha filha. Há dois, voltei ao trabalho. E todos os dias, entre uma fralda e uma reunião, faço a mesma coisa que fazia antes de ela chegar: ajudo empresas a levar a sério a saúde mental das suas pessoas. A diferença? Existe agora uma ironia que não me larga: vendo, com convicção, aquilo que estou a ter mais dificuldade em praticar comigo próprio.
Escrevo isto porque desconfio que não é só sobre mim. Todos os anos, milhares de pessoas regressam de uma licença de parentalidade, ligam o portátil e tentam voltar a ser, ao mesmo tempo, o profissional de antes e o pai ou a mãe que acabaram de se tornar.
A licença foi um mês. Escrevo o número por extenso porque continua a parecer-me curto: um mês. Foi o tempo que houve para conhecer uma pessoa nova, reorganizar uma casa inteira à volta dela e começar a perceber que eu também tinha passado a ser alguém diferente. Ao fim de quatro semanas, voltei a abrir o e-mail. O corpo estava na secretária; a cabeça continua dividida entre dois mundos que agora partilham a mesma morada. E se isto acontece a quem trabalha nesta área, todos os dias, pergunto-me como será para quem nunca teve sequer a linguagem para nomear o que está a sentir.

O trabalho remoto é, nesta fase, ao mesmo tempo o maior presente e a maior armadilha. É um presente porque a oiço rir na sala ao lado a meio da manhã. É uma armadilha porque a fronteira entre "estou a trabalhar" e "estou a ser pai" se tornou muito ténue. Existe uma parede fina e a sensação constante de estar a fazer duas coisas a meio. Falamos muito das vantagens do remoto; falamos pouco de como se protege a saúde mental quando a vida pessoal e a profissional deixam de ter fronteiras claras.
Depois falamos de cansaço - não o de uma noite mal dormida, mas o que se acumula e baralha as palavras a meio de uma frase. Sou responsável por crescimento e estratégia; o meu trabalho é, literalmente, pensar com clareza sobre o futuro. Fazê-lo com quatro horas de sono intermitente é um exercício de humildade diário. Ainda estou a aprender que dar o meu melhor a 60% num período destes não é falhar. Já testemunhava e agora tornou-se mais claro que muitas equipas estejam cheias de pessoas a 60% que não se atrevem a dizê-lo, com medo de que seja lido como falta de compromisso.
O que me apanhou desprevenido foi a identidade. Sabia que ia dormir menos. Não sabia que ia deixar de me reconhecer durante uns tempos. A existência de uma prioridade nova não negociável colide com um sentido do que é o Pedro. Há um luto silencioso nisto, difícil de confessar quando temos ao colo tudo o que sempre quisemos. E se há tema de que se fala pouco nas empresas, é este: o que muda, na cabeça de um homem, quando se torna pai.
É aqui que a ironia se desfaz e vira outra coisa. Vender saúde mental com uma recém-nascida em casa obrigou-me a parar de a tratar como um argumento que se explica e a começar a vivê-la como uma prática que custa. Quando discuto com uma empresa parceira que o bem-estar das suas pessoas não sobrevive a boas intenções já não é teoria. É a coisa mais concreta nestes dias.
Este é um testemunho de quem está a viver isto pela primeira vez, não de quem sabe do que está a falar. Nesse sentido, não quis fechar este texto sozinho. Deixo o resto do texto nas teclas da Joana da Silvaem tom de desafio: Como se atravessa esta transição sem nos perdermos pelo caminho? O que podem, de facto, as organizações fazer? É essa a conversa que quero que este texto comece.
Pedro, obrigada pelo desafio! Vou tentar responder-te na medida do possível, com um enquadramento clínico e cientificamente apropriado.
Uma das frases do teu testemunho que mais captou a minha atenção foi “Depois falamos de cansaço (...) o que se acumula e baralha as palavras a meio de uma frase.” Seria tentador pensar que isto se trata de fragilidade… no entanto, é uma resposta fisiológica do teu cérebro perfeitamente normal, dadas as circunstâncias. Um cérebro privado de sono, de forma continuada, sofre alterações na atividade do córtex pré-frontal, a região responsável por planear, decidir e pensar com clareza acerca do futuro. Além disso, a amígdala - estrutura central na deteção de estímulos com relevância emocional - torna-se hiper-reativa a estímulos aversivos e perde a regulação exercida pelo córtex pré-frontal medial (Yoo et al., 2007). No entanto, o desequilíbrio é bidirecional: a privação de sono amplifica também a reatividade dos circuitos de recompensa a estímulos agradáveis, ao ponto de enviesar o julgamento sobre o que é positivo (Gujar et al., 2011) - sobrevalorização sem o contrapeso da avaliação. É sempre o mesmo padrão, seja no negativo seja no positivo: as estruturas subcorticais (amígdala e circuitos de recompensa) tornam-se hiper-reativas, e o córtex pré-frontal perde a capacidade de as regular. Daí que a mesma noite mal dormida produza uma reação desproporcionada às 10h e uma decisão impulsiva às 18h. Na prática, isto resume-se em duas coisas muito concretas: além de se pensar e planear com mais dificuldade e menos eficiência - como se um nevoeiro denso povoasse o interior da nossa cabeça, também se sente tudo com mais intensidade e à flor da pele (Goldstein & Walker, 2014). Ademais, o “sono intermitente” de que falas também interfere com a consolidação de memórias e com a regulação hormonal, nomeadamente do cortisol - a hormona do stress. É por isso que o risco de ansiedade e depressão perinatal aumenta precisamente neste período, não só na mãe como também no pai, ainda que a investigação sobre este último seja mais recente e escassa (Culnan, 2025; Wynter et al., 2020).
Além disso, é compreensível quando dizes que esta experiência de vida agitou os alicerces da tua identidade! Segundo a psicologia perinatal, é natural ocorrer uma reorganização identitária com a parentalidade. Tanto no pai como na mãe, pode ocorrer uma maior atividade nas redes neuronais associadas à vinculação e à leitura emocional do bebé, tanto mais marcada quanto maior o seu envolvimento nos cuidados (Abraham et al., 2014). Além disso, os níveis de testosterona no pai tendem a descer nos meses seguintes ao nascimento (Gettler et al., 2011). É, portanto, perfeitamente natural que sintas que não só a tua vida, como também o teu cérebro e a tua identidade, estão em metamorfose. Acredito que nomear isto não apague o luto existencial que sentes atualmente, mas espero que retire o peso de parecer um sinal de que algo está errado contigo. E, ainda que pareça simples, a resposta mais valiosa que tenho para “como se atravessa isto sem nos perdermos” talvez passe precisamente por reconhecer que não se atravessa sem mudar e aceitar que a mudança aconteça.
Mas aceitar não significa suportar de forma rígida, e suportar sozinho… A literatura sobre o burnout parental demonstra que é imprescindível equilibrar aquilo que esta fase exige (sono, carga cognitiva e reorganização identitária) com os recursos que temos disponíveis para lhe fazer face (Mikolajczak, Gross & Roskam, 2019). A autocompaixão, o apoio social ativamente procurado e a redução do padrão interno de “pai perfeito”, estão entre os recursos com maior evidência protetora.
O que podem, de facto, as organizações fazer?
O que as organizações podem fazer exige intenção. É importante alterar o ponto de vista, procurando tratar a parentalidade como uma transição com fases distintas e cada uma com necessidades muito próprias: preparar antes da licença começar, para que as expectativas relacionadas com a parentalidade e a gravidez não sejam vividas em silêncio; acompanhar durante a licença, não só a logística de cuidar de um bebé como também reconhecer e respeitar as reorganizações de identidade previamente faladas; e, sobretudo, apoiar ativamente o regresso, momento especialmente sensível porque a pessoa que regressa já não é integralmente a pessoa que foi de licença e ainda se encontra em processo de transição. Na prática, isto pode traduzir-se em acompanhamento psicológico disponível antes e depois do regresso, grupos de partilha entre pares que se encontram na mesma etapa, mentoria estruturada no regresso e medidas reais e concretas de flexibilidade. Já existem, aliás, programas pensados especificamente para esta transição, nomeadamente o programa da MindPartner denominado Baby is Coming.
No fundo, Pedro, as organizações não conseguem resolver os desafios e as exigências que as alterações biológicas e fisiológicas ou a identidade em metamorfose de quem se torna pai acarretam. Conseguem, no entanto, não lhes acrescentar mais peso e facilitar o processo através de apoio, e isso já é um ótimo ponto de partida.
Referências:
https://www.cell.com/fulltext/S0960-9822(07)01783-6
https://www.researchgate.net/publication/50831535_Sleep_Deprivation_Amplifies_Reactivity_of_Brain_Reward_Networks_Biasing_the_Appraisal_of_Positive_Emotional_Experiences
https://walkerlab.berkeley.edu/reprints/Goldstein-Walker_AnnRevClinPsych_2014.pdf
https://postpartum.net/the-connection-between-sleep-and-perinatal-mood-and-anxiety-disorders/
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0266613820301108
https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.1402569111
https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.1105403108
https://www.researchgate.net/publication/332402868_Parental_Burnout_What_Is_It_and_Why_Does_It_Matter