O tema que vos trago hoje é uma constante nas consultas que acompanho, nos grupos que frequento e no que observo diariamente nas redes sociais. São questões que me chegam de todos os lugares: Como cultivar mais momentos de bem-estar? Como prevenir o burnout? Como cuidar melhor de nós? (...)  

É, sem dúvida, positivo assistir a esta crescente valorização do autocuidado: quase como uma resposta à pressão constante para sermos produtivos, estarmos sempre disponíveis, atualizados e “ligados”... Quase como uma resposta às exigências de um mundo tão acelerado, onde nem sempre há espaço para parar e respirar, observar o nosso mundo interno, compreender o que as nossas emoções nos querem informar e respeitar as nossas necessidades de descanso e de conexão com os outros...

No entanto, através das minhas experiências, tenho reparado que surge, por vezes, um paradoxo que merece reflexão.

Acreditamos e somos levados a acreditar que devemos seguir determinados padrões, sugestões, conselhos e rotinas de autocuidado. Em termos gerais, o problema não está nas iniciativas em si, mas na forma como nos adaptamos a elas. As sugestões de autocuidado são imensas e diversas. Por outro lado, cada um de nós é imenso, diverso e único no mundo, também. Portanto, o que funciona para alguém não significa que irá funcionar para qualquer pessoa. O que acontece, muitas vezes, é que não nos questionamos se as sugestões são realmente adequadas para nós. Queremos simplesmente cumprir e corresponder, acriticamente, e com esforço significativo. Consequentemente, isto adiciona algum stress, ansiedade e pressão a uma atividade que, sendo de autocuidado, tem como objetivo aliviar esta sintomatologia e trazer alguma leveza, não o contrário.

Muitas pessoas sentem-se sobrecarregadas por rotinas altamente exigentes, que não começam nem terminam na jornada de trabalho. Pequeno-almoço equilibrado, exercício físico, journaling, meditação, matcha, óleos essenciais... Mais tarde, surgem as responsabilidades familiares, tarefas domésticas, trabalho que ficou por terminar e, ainda, a expectativa de cumprir mais atividades de “bem-estar”: ler um certo número de páginas de livro (que convém terminar este mês!), fazer yoga, meditar mais uma vez...


E quando não terminamos esta lista quase interminável de tarefas? Surge frequentemente a culpa, a frustração e a sensação de falha.

Estaremos, portanto, a combater o fogo com gasolina?


O autocuidado pode, de facto, ser uma ferramenta essencial. Mas, como explicado anteriormente, quando é transformado em mais uma lista de tarefas a cumprir - sem espaço para adaptação ou escuta interna - corre o risco de se tornar contraproducente.

No contexto profissional atual, é comum vivermos sob pressão: são significativos os níveis de perfecionismo, Síndrome do Impostor, dificuldade em estabelecer limites e, também, de funcionamento em piloto automático. Portanto, se tentamos responder a este mal-estar, acrescentando novas exigências sob o título de “autocuidado”, intensificamos e engrossamos a lista de tarefas que pertencem ao modo “fazer”, quando o objetivo primordial seria transitar para o modo “ser”. Estamos, sem sombra de dúvidas, a combater o fogo com gasolina!

Este fenómeno pode levar a uma idealização do tempo livre, onde o descanso só é “permitido” depois de cumprir determinadas metas: andar 10 mil passos, ler “n” páginas, completar uma sessão de exercício ou meditação diariamente. Quando estas metas não são atingidas, surgem sentimentos de culpa, vergonha e autocrítica — exatamente os mesmos que já encontramos noutras áreas da vida.

Se o autocuidado deixa de ser reparador e passa a ser mais uma fonte de pressão, importa repensar o que entendemos por cuidar de nós próprios. O verdadeiro autocuidado não reside na quantidade de práticas que acumulamos, mas no quão presentes conseguimos estar no momento. Atividades realizadas sem intenção ou consciência dificilmente terão um impacto profundo no nosso bem-estar e na nossa capacidade de ouvir o que nosso corpo nos tem a informar.

Mais do que cumprir um plano rígido, talvez o convite seja outro: Parar, observar e escutar.

O que preciso hoje?

Em alguns dias, pode ser uma caminhada ou um pouco de exercício físico. Noutros, pode ser simplesmente descansar, ver um episódio de uma série ou não fazer nada em particular. E isso também é muito válido: não fazer nada também nos dá a liberdade de realmente criarmos conexão com o nosso mundo interior e com as nossas emoções, sem nos alienarmos. Sair do piloto automático exige algum esforço consciente: o esforço de estar presente, de observar pensamentos, emoções e sensações corporais com curiosidade e sem julgamento. Implica, muitas vezes, confrontarmo-nos com aquilo que evitamos no ritmo acelerado do dia a dia. Mas é, também, através desse espaço de consciência que nos é possível fazer escolhas mais ajustadas às nossas reais necessidades.

Uma prática simples pode ser fazer pequenas pausas ao longo do dia: parar por alguns minutos, respirar, observar o que está presente: no corpo, na mente, nas emoções e, a partir daí, decidir com intenção o próximo passo.


O autocuidado não é sobre cumprir metas. É sobre permitir-se ser aquilo que se é, no momento presente.

Claro que a rotina tem o seu valor. Mas a flexibilidade dentro dessa rotina - a capacidade de ajustar expectativas e responder ao que realmente precisamos - pode ser significativamente mais reparadora. Portanto, cuidar de si não implica, necessariamente, acrescentar mais atividades a uma agenda já sobrecarregada: implica exatamente o contrário: retirar, simplificar, abrandar…

Presença e intenção podem ser cultivadas um minuto de cada vez. Convido-vos a conhecerem a técnica  do STOP:

  • S – “Stop” / Pare o que está a fazer.
  • T – “Take a breath” / Respire fundo.
  • O – “Observe” / Observe pensamentos, emoções e sensações, sem julgamento.
  • P – “Proceed” / Prossiga de forma consciente e intencional.



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