Publicado no âmbito do Mês de Prevenção do Suicídio, que assinala anualmente o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio a 10 de setembro.

Falar sobre suicídio continua a ser difícil. O receio de dizer algo errado, de não saber como reagir ou de que perguntar sobre suicídio possa, de alguma forma, desencadear pensamentos suicidas noutra pessoa leva muitas vezes familiares, amigos e colegas a evitar o assunto.
No entanto, perante alguém em sofrimento psicológico intenso, aproximar-se, perguntar e escutar pode ser um primeiro passo importante.
Não é preciso ser profissional de saúde mental para reconhecer sinais de sofrimento e oferecer apoio inicial. É, contudo, essencial conhecer os seus limites e facilitar o acesso a cuidados especializados.
Um problema de saúde pública complexo e multifatorial
O suicídio constitui um importante problema de saúde pública. Estima-se que, anualmente, cerca de 720 000 pessoas morram por suicídio em todo o mundo - 1 morte a cada 43 segundos, sendo esta a 3ª principal causa de morte entre os 15 e os 29 anos. Por cada pessoa que morre por suicídio, estima-se que mais de 20 realizem uma tentativa, com consequências para as próprias pessoas, as famílias e as comunidades (World Health Organization [WHO], 2025).
A evolução recente revela sinais preocupantes: na União Europeia, a tendência de descida da mortalidade por suicídio estagnou, tendo-se registado um aumento entre 2021 e 2022. Em Portugal, as mortes por suicídio também aumentaram entre 2021 e 2023, assim como as chamadas de emergência associadas a comportamentos de risco, nomeadamente tentativas de suicídio (cerca de 39% entre 2019-2021). Estes dados são preocupantes, mas subestimam a dimensão do problema, uma vez que muitas tentativas não são registadas pelos serviços (Eurofound, 2025).
Compreender o suicídio implica, antes de mais, evitar explicações simplistas. O comportamento suicida não resulta, geralmente, de uma causa única, mas de uma interação dinâmica entre fatores clínicos, psicológicos, sociais, relacionais e contextuais ao longo da vida. Depressão, consumo de substâncias, ideação suicida e tentativas anteriores podem aumentar o risco; dificuldades económicas ou laborais, isolamento, adversidade e trauma, discriminação, violência, doença física e dor crónica podem aumentar a vulnerabilidade (WHO, 2025; Favril et al., 2023).
Nenhum destes fatores constitui, isoladamente, uma causa direta. O risco suicida é dinâmico e depende das circunstâncias, da história pessoal, do sofrimento vivido e dos recursos disponíveis em cada momento. Mais do que procurar uma explicação única, importa compreender o que a pessoa está a viver, o que intensifica o seu sofrimento e que apoios podem contribuir para a sua segurança.
Pensar em suicídio é o mesmo que querer morrer?
Não necessariamente. Os pensamentos sobre a morte e o suicídio podem assumir diferentes formas, intensidades e significados, desde o desejo de que o sofrimento termine sem intenção de provocar a própria morte, até pensamentos passivos de morte (como desejar adormecer e não acordar) ou ideação mais explícita, com/sem intenção, planeamento ou comportamentos preparatórios (NICE, 2022).
Ter pensamentos suicidas não significa que ocorrerá uma tentativa, mas qualquer manifestação deve ser levada a sério e compreendida no seu contexto. Uma verbalização suicida não representa necessariamente uma decisão definitiva: é um sinal de sofrimento que requer atenção (Teismann et al., 2024). Durante uma crise, a pessoa pode sentir-se aprisionada, afastar-se dos outros e ter dificuldade em reconhecer alternativas perante um sofrimento vivido como intolerável (Melzer et al., 2024). A intervenção deve procurar aumentar a segurança, reduzir o isolamento e facilitar o acesso ao apoio necessário.
Mitos e factos sobre o suicídio
Alguns mitos podem levar à desvalorização do sofrimento e atrasar a procura de ajuda (Homan et al., 2026; Favril et al., 2023; Polihronis et al., 2022). Conhecer os factos permite responder de forma mais segura.
Mito: Perguntar sobre suicídio coloca a ideia na cabeça da pessoa.
Facto: Perguntar diretamente e com cuidado não aumenta os pensamentos ou comportamentos suicidas; pode facilitar a expressão do sofrimento e a procura de apoio.
Mito: Quem fala em suicídio não o faz.
Facto: Qualquer comunicação sobre suicídio deve ser levada a sério como um possível sinal de sofrimento e risco, não como mera “procura de atenção”.
Mito: Quem quer morrer não pode ser ajudado.
Facto: Uma crise suicida não é inevitável, nem irreversível. Uma resposta adequada pode aumentar a segurança e facilitar o acesso a ajuda.
Mito: O suicídio só acontece a pessoas com doença mental.
Facto: As perturbações mentais podem aumentar o risco, mas não explicam isoladamente o comportamento suicida. Fatores sociais, relacionais e contextuais também podem contribuir para a vulnerabilidade.
Mito: Se a pessoa parece melhor, o perigo passou.
Facto: Uma melhoria aparente não garante que a crise terminou. O acompanhamento e o contacto continuam a ser importantes, sobretudo após uma tentativa.
Sinais de alerta
É importante estar atento, sobretudo quando estes sinais surgem recentemente, se intensificam ou representam uma mudança significativa no comportamento habitual da pessoa:
- No que a pessoa diz: fala em querer morrer ou desaparecer; expressa desesperança ou ausência de razões para viver; sente que é um fardo para os outros; refere repetidamente a morte ou o suicídio.
- No que a pessoa faz: procura informação sobre formas de morrer ou acesso a meios letais; adota comportamentos preparatórios; despede-se inesperadamente; oferece objetos pessoais importantes; afasta-se de pessoas e atividades habituais; aumenta o consumo de álcool ou outras substâncias; ou apresenta comportamentos impulsivos ou de risco.
- No que a pessoa sente ou demonstra: sofrimento intenso; alterações marcadas do humor ou do sono; ansiedade ou agitação; isolamento crescente.
Nenhum destes sinais permite, isoladamente, prever uma tentativa de suicídio. Constituem, no entanto, razões para nos aproximarmos, perguntarmos diretamente e procurarmos compreender o que está a acontecer. Perante a manifestação de intenção suicida, a existência de um plano ou perigo imediato, é necessário agir sem esperar pelo aparecimento de outros sinais.
Primeiros Socorros Psicológicos: o que são?
Constituem uma resposta humana, prática e de suporte perante uma situação de crise. Procuram reduzir o sofrimento imediato, identificar necessidades e facilitar o acesso a apoio adequado, respeitando a dignidade e a cultura da pessoa (WHO, War Trauma Foundation & World Vision International, 2011).
Perante uma possível crise suicida, não substituem medidas específicas de segurança, avaliação profissional ou cuidados especializados quando necessários (NICE, 2022). A resposta inicial pode organizar-se em três princípios: observar, escutar e ligar.

Se alguém me disser que está a pensar em suicídio, o que devo fazer?
- Reconheça a gravidade da situação e procure manter a calma: Mostre-se disponível, mesmo que não compreenda totalmente o que a pessoa está a viver.
- Pergunte diretamente: “Estás a pensar em suicídio?” Procure perceber se existe intenção de agir, um plano ou acesso imediato a meios para se magoar. Não lhe cabe atribuir um “nível de risco”, mas reconhecer o perigo e promover a segurança.
- Escute sem julgar, minimizar ou tentar resolver tudo. Evite interromper, contestar o que a pessoa sente ou recorrer a frases como “isso vai passar”.
- Explique que poderá ser necessário envolver outras pessoas para garantir a segurança. Pode dizer: “Quero respeitar a tua confiança, mas, se achar que estás em perigo, vou precisar de procurar ajuda contigo.”
- Perante perigo imediato, não deixe a pessoa sozinha. Procure ajuda urgente e, se for possível fazê-lo em segurança, reduza o acesso a medicamentos, objetos ou outros meios potencialmente letais.
- Ajude a concretizar o passo seguinte: Pergunte: “Vamos ligar juntos?” ou “Posso ficar contigo enquanto falas com alguém?” Facilite o contacto com uma pessoa de confiança, um profissional ou um serviço de apoio.
É possível criar um plano de segurança?
Para além da resposta imediata à crise, é importante preparar antecipadamente os passos a seguir perante um novo agravamento. Esse é o objetivo do Safety Planning Intervention: um plano de segurança breve e colaborativo, elaborado quando a pessoa apresenta maior capacidade para refletir e tomar decisões (Stanley & Brown, 2012).
O plano organiza-se em seis passos:
- Reconhecer os sinais de alerta.
- Identificar estratégias pessoais para enfrentar a crise.
- Recorrer a pessoas ou lugares que proporcionem contacto e distração.
- Identificar pessoas a quem pedir ajuda diretamente.
- Definir os profissionais e serviços a contactar.
- Tornar o ambiente mais seguro, reduzindo o acesso a meios potencialmente letais.
O plano de segurança não substitui a avaliação clínica nem deve ser utilizado como resposta isolada. Deve integrar uma intervenção mais abrangente, adaptada à idade, às necessidades e ao contexto da pessoa (NICE, 2022).
Após um momento de crise: manter a ligação.
A necessidade de apoio mantém-se para além da elaboração de um plano e da fase mais intensa da crise. Intervenções breves que incluem contactos de acompanhamento estão associadas a uma redução modesta, mas significativa, de novas tentativas de suicídio (Homan et al., 2026).
Para familiares e amigos, manter a ligação pode traduzir-se em gestos simples, como perguntar “Como estás hoje?” ou dizer “Lembrei-me de ti”. O importante é que o apoio não desapareça após a fase mais aguda da crise.
O que importa recordar?
Se está preocupado/a com alguém, aproxime-se, pergunte diretamente, escute sem julgamento, ajude a promover a segurança, facilite o acesso a apoio e mantenha o contacto.
Não precisa de encontrar as palavras perfeitas. Os Primeiros Socorros Psicológicos não substituem os cuidados especializados, mas podem facilitar o primeiro passo entre o sofrimento e a ajuda adequada.
E se for comigo?
Se tem pensado na própria morte ou em suicídio, poderá estar a viver um sofrimento difícil de suportar. Não precisa de resolver agora tudo o que o/a trouxe até aqui. A prioridade é atravessar este momento em segurança e permitir que outras pessoas o/a ajudem.
Procure não ficar sozinho/a. Contacte alguém de confiança e explique, tão claramente quanto conseguir, o que está a acontecer. Não precisa de contar tudo nem de encontrar as palavras certas. Pode começar por dizer:
“Não me sinto seguro/a sozinho/a neste momento. Preciso que fiques comigo.”
ou:
“Estou a pensar em suicídio e preciso de ajuda.”
Afaste-se de medicamentos, objetos ou outros meios que possa utilizar para se magoar. Se possível, peça a alguém de confiança que permaneça consigo e ajude a tornar o ambiente mais seguro.
Se sentir que não consegue manter-se em segurança, procure ajuda urgente. O primeiro passo pode ser simplesmente dizer: “Preciso de ajuda agora.”
Onde procurar ajuda: contactos de apoio em Portugal
- 1411: Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico
- SNS 24: 808 24 24 24: Serviço de Aconselhamento Psicológico.
- 112: Emergência: perante perigo imediato, uma tentativa em curso ou outra situação de emergência.
O papel das organizações e a saúde mental
O sofrimento psicológico não fica necessariamente fora do local de trabalho. Embora não substituam os serviços de saúde, as organizações podem contribuir para reconhecer sinais de sofrimento, reduzir riscos, facilitar a procura de ajuda e assegurar uma resposta adequada perante uma crise.
As orientações da Organização Mundial da Saúde e da Organização Internacional do Trabalho (2022) destacam três áreas de atuação:
- Prevenção: reduzir riscos psicossociais, capacitar as chefias para reconhecer sinais de alerta e promover uma cultura em que pedir ajuda seja natural.
- Resposta: disponibilizar canais de apoio claros, preparar os gestores para conversas seguras e definir procedimentos para situações urgentes.
- Postvenção: após uma tentativa ou morte por suicídio, comunicar de forma cuidada e disponibilizar apoio psicológico às equipas, com especial atenção aos colegas mais próximos.
As entidades que prestam apoio em saúde mental às empresas podem reforçar esta resposta através da formação, da continuidade dos cuidados e da promoção de uma cultura de segurança psicológica.
Nota: Este conteúdo tem uma finalidade informativa e psicoeducativa e não substitui uma avaliação psicológica, psiquiátrica ou médica. Perante perigo imediato ou uma emergência médica, contacte o 112 ou recorra a um serviço de urgência.
Referências Bibliográficas
- Eurofound. (2025). Mental health: Risk groups, trends, services and policies. Publications Office of the European Union. https://doi.org/10.2806/1616679
- National Institute for Health and Care Excellence. (2022). Self-harm: Assessment, management and preventing recurrence (NICE Guideline NG225). https://www.nice.org.uk/guidance/ng225
- Polihronis, C., Cloutier, P., Kaur, J., Skinner, R., & Cappelli, M. (2022). What’s the harm in asking? A systematic review and meta-analysis on the risks of asking about suicide-related behaviors and self-harm with quality appraisal. Archives of Suicide Research, 26(2), 325–347. https://doi.org/10.1080/13811118.2020.1793857
- Stanley, B., & Brown, G. K. (2012). Safety Planning Intervention: A brief intervention to mitigate suicide risk. Cognitive and Behavioral Practice, 19(2), 256–264. https://doi.org/10.1016/j.cbpra.2011.01.001
- World Health Organization. (2025). Suicide worldwide in 2021: Global health estimates. https://www.who.int/publications/i/item/9789240110069
- World Health Organization, & International Labour Organization. (2022). Mental health at work: Policy brief. https://www.who.int/publications/i/item/9789240057944
- World Health Organization, War Trauma Foundation, & World Vision International. (2011). Psychological first aid: Guide for field workers. World Health Organization. https://www.who.int/publications/i/item/9789241548205